Compreendendo os princípios básicos da doença de Cushing em equídeos - Sinais clínicos, testes, tratamento e precauções
- Horse Guide
- 1 de out. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 20 de out. de 2024

A doença de Cushing é uma enfermidade que acomete a hipófise ou glândula pituitária. Recebeu esse nome em homenagem a Harvey Cushing, um neurocirurgião norte americano pioneiro da cirurgia cerebral, que descreveu a doença pela primeira vez em 1932. A hipófise é uma estrutura altamente complexa, do tamanho de uma ervilha, localizada na base do cérebro dos mamíferos. Ela controla a função da maioria de outras glândulas chamadas endócrinas, podendo ser dividida em duas regiões principais: a adenohipófise ou hipófise anterior e a neurohipófise ou hipófise posterior.
Em equinos a causa básica da doença de Cushing está associada a adenomas (um crescimento glandular de origem benigna) numa região intermediária da hipófise, sendo por isso conhecida como Disfunção da Pars Intermedia da Hipófise (PPID). Em humanos a doença é conhecida como Síndrome de Cushing pois acomete uma outra parte da hipófise, diferentemente dos equinos. Esta condição já foi relatada em praticamente todas as raças de cavalos e em ambos os sexos, apesar de muitos estudos observarem uma prevalência maior em pôneis e cavalos da raça Morgan. O tumor está associado com o avançar da idade, sendo que as células defeituosas produzem uma quantidade excessiva de substâncias que provocam algumas anormalidades na regulação de hormônios corporais. Uma dessas substâncias é o hormônio adrenocorticotrófico ou corticotrofina (ACTH), que tem um efeito direto nas glândulas supra-renais e nos rins dos cavalos, tornando-os suscetíveis a infecções como as de pele, abscessos subsolares, conjuntivites, sinusites, gengivites, broncopneumonias, entre outras. Assim, altos níveis de ACTH podem ser um indicativo da doença de Cushing em equinos, que em casos mais graves pode causar distúrbios neurológicos. A idade média dos animais afetados é de 18 a 23 anos, embora já tenha sido relatada em animais mais jovens.
Os sinais clínicos mais comuns de cavalos com Cushing são o hirsutismo, uma cobertura de pelos longos e crespos muito evidente, que frequentemente afeta todo o corpo do animal. Esta retenção anormal de pelos ocorre independentemente da estação do ano. Outros sinais incluem o aspecto palmar e plantar dos membros, além de depósitos de gordura anormais, perda de peso e performance, aumento da sede e micção, e em alguns casos, hiperinsulinemia (aumento dos níveis de insulina no sangue). Alguns cavalos mais velhos perdem massa muscular e por isso são mais propensos a quedas. Uma das principais complicações de cavalos com Cushing é a laminite crônica. As patas extremamente doloridas depois de aparadas no casqueamento também podem ser um sintoma relacionado a doença.
No artigo publicado em 2018 na revista Dressage Today, o médico veterinário Douglas Langer* faz algumas considerações importantes sobre a doença de Cushing. Segundo ele, 80 a 90% dos cavalos que se apresentam sensíveis após o casqueamento, tem a doença de Cushing (PPID) ou a Síndrome Metabólica Equina (EMS).
Complicações de Cushing e EMS
Os pequisadores descobriram que, embora a doença de Cushing e a EMS não sejam a mesma coisa, existe uma forte ligação entre as duas. Vale destacar que são doenças distintas, portanto, nem todo cavalo com EMS irá necessariamente desenvolver Cushing. “É um complexo das duas doenças com que estamos frequentemente a lidar”, explica Langer. “À medida que os cavalos ganham peso, as preocupações com a EMS aumentam e os seus níveis de insulina tendem a subir, o que pode, com o tempo, desencadear um episódio de laminite. Se o cavalo também é afetado por Cushing, pode rapidamente desencadear um episódio de laminite, especialmente se lhe forem administradas injeções de esteróides nas articulações. As injeções nas articulações podem fazer pender a balança”, explica Langer.
“Se eu estiver preocupado com qualquer uma das condições - doença de Cushing ou EMS - trato o cavalo com medicamentos para as articulações. O ácido hialurônico é um suplemento seguro para administrar nas articulações. As terapias regenerativas como a IRAP (Proteína Antagonista do Receptor de Interleucina 1), Pro-Stride e plasma rico em plaquetas também são opções adequadas”. Acrescenta que existe um novo medicamento para estes cavalos que está atualmente sendo utilizado a título experimental - gel de poliacrilamida, um lubrificante artificial para as articulações que estará brevemente no mercado.
Testes para Cushing e EMS
Quando se suspeita que um cavalo tem sinais de EMS, doença de Cushing ou recebe injeções de esteróides, o ideal é que os veterinários testem os níveis de ACTH e insulina do cavalo antes de qualquer tratamento. “O que procuramos são níveis de ACTH mais elevados do que o normal”, diz Langer. “Com a doença de Cushing, se o nível de ACTH não for elevado e eu ainda suspeitar desta doença, podemos fazer um teste de estimulação TRH (hormônio libertador de tirotropina) para ver se há uma resposta normal ou não.”
Tratamento
Embora não exista cura para a doença de Cushing (PPID), existe tratamento como alguns medicamentos que podem ajudar a aliviar os sinais clínicos. Equinos com tumores hipofisários são difíceis não só de diagnosticar como de tratar. Como os sinais clínicos variam e a condição é observada primariamente em cavalos mais velhos, é importante tratar as intercorrências da doença. O manejo adequado de cavalos com doença de Cushing é uma parte importante no tratamento desses animais. Tosa de toda a pelagem pode ser necessária em animais com hirsutismo muito acentuado. Qualquer ferida ou infecção deve ser rigorosamente tratada, já que cavalos com PPID são imunossuprimidos, o que os torna mais propensos a infecções recorrentes e de difícil tratamento. Uma das medicações mais comuns de escolha para tratar PPID é a pergolida (Prascend), uma droga que controla os sintomas ao inibir a produção excessiva de ACTH. Outras práticas de manejo geral, como cuidados dentários, nutricionais e esquemas adequados de vacinação e de aplicação de vermífugos, são importantes em todos os equinos mais velhos.
Precauções para reduzir os riscos
Embora a doença de Cushing nem sempre possa ser evitada, existem precauções que podem ser tomadas para diminuir o risco. “O mais importante é manter o peso do seu cavalo baixo, fornecendo uma nutrição adequada, o que significa alimentá-lo apenas com o que ele realmente precisa”, diz Langer. “Alimentar o cavalo com demasiadas cenouras, maçãs ou guloseimas é um fator que contribui para isso. Evite-os em cavalos que estejam predispostos”. A ingestão de açúcar deve ser minimizada, ou seja, uma dieta de baixo índice glicêmico é uma das abordagens dietéticas mais recomendadas para cavalos com PPID ou EMS. Quando se tem um cavalo de fácil manutenção, é aconselhável colocar-lhe um açaime de pastoreio (também conhecido como trombeta) quando o levar para o pasto ou piquete.
Se você está preocupado com o fato de o seu cavalo poder vir a desenvolver a doença de Cushing, algo que pode ajudar é certificar-se de que ele esteja num peso saudável. Proporcione uma alimentação equilibrada reduzindo a ingestão de açúcar, fornecendo ao seu cavalo aquilo que é necessário. Isso irá minimizar o impacto da doença.
Porém, se o seu cavalo tem excesso de peso ou foi diagnosticado com a doença de Cushing e necessita de tratamento, evite complicações - consulte e tenha um médico veterinário qualificado para tratar seu cavalo. Somente ele poderá escolher medicamentos que sejam seguros e eficazes para tratar esta e outras doenças. Quando tratados corretamente, os cavalos com doença de Cushing podem ter uma vida longa e útil.
*Douglas L. Langer obteve a sua licenciatura em medicina veterinária na Universidade do Minnesota em 1989, um mestrado em nutrição na Universidade do Kentucky em 1985, completou um estágio em animais de grande porte na Universidade de Guelph em 1990 e uma residência em cirurgia equina e claudicação na Universidade da Califórnia-Davis em 1993. É o atual presidente da Wisconsin Equine Clinic and Hospital em Oconomowoc, Wisconsin, onde exerce a sua atividade há 24 anos, e é diretor dos departamentos de cirurgia e de diagnóstico avançado por imagem. Especializado em claudicação e cirurgia de cavalos de desporto, incorpora as mais recentes modalidades de diagnóstico e tratamento para melhorar a saúde e a solidez a longo prazo do atleta equino e está ativamente envolvido em avanços na claudicação equina, cirurgia e terapias regenerativas avançadas. Ele e a sua mulher, Shannon, são proprietários da Maple Run Farm, LLC, uma quinta de criação de cavalos Hanoverianos no sudeste do Wisconsin.
Fonte: Cushing em equinos – Transtornos metabólicos de animais domésticos (2004) https://www.ufrgs.br/lacvet/site/wp-content/uploads/2020/11/cushing-equinos.pdf
Understanding the basics of equine Cushing´s Desease - Dressage today https://dressagetoday.com/lifestyle/understanding-the-basics-of-equine-cushings-disease/